A importância da
psicanálise para a psiquiatria, entretanto, nunca teria chamado a atenção do
mundo intelectual para ela ou lhe conquistaria um lugar em The History of
our Times. Esse resultado foi ocasionado pela relação da psicanálise com a
vida mental normal, não com a patológica.
Originalmente, a pesquisa analítica de fato não tinha
outro objetivo senão estabelecer os determinantes do desencadeamento (a gênese)
de alguns estados mentais mórbidos. No curso de seus esforços, contudo, ela
teve êxito em trazer à luz fatos de importância fundamental, criando realmente
uma nova psicologia, de modo que se tornou óbvio que a validade de tais achados
não poderia se restringir à esfera da patologia. Já vimos quando se produziu a
prova decisiva da exatidão dessa conclusão. Foi quando os sonhos foram
interpretados com sucesso pela técnica analítica — os sonhos, que são parte da
vida mental de pessoas normais e que, no entanto, podem com efeito ser
encarados como produtos patológicos capazes de ocorrer regularmente em estados
sadios.
Se as descobertas psicológicas obtidas dos sonhos fossem
firmemente lembradas, só outro passo era necessário antes que a psicanálise
pudesse ser proclamada como a teoria dos processos mentais mais profundos não
diretamente acessíveis à consciência — como uma ‘psicologia profunda’ —, e
antes que pudesse ser aplicada a quase todas as ciências mentais. Esse passo
residia na transição da atividade mental de homens individuais para as funções
psíquicas de comunidades humanas e povos, isto é, da psicologia individual para
a de grupo, e muitas analogias surpreendentes nos impuseram essa transição.
Fora descoberto, por exemplo, que nos estratos profundos da atividade mental
inconsciente os contrários não se distinguem um do outro, mas são expressos
pelo mesmo elemento. Já em 1884, porém, Karl Abel, o filólogo, havia apresentado
a opinião (em seu ‘Über dem Gegensinn der Urworte’) de que as línguas mais antigas que nos são
conhecidas tratam os contrários da mesma maneira. Assim, o antigo egípcio, por
exemplo, tinha em primeira instância apenas uma palavra para designar ‘forte’ e
‘fraco’, e somente mais tarde os dois lados da antítese foram distinguidos por
ligeiras modificações. Mesmo nas línguas mais modernas claras relíquias de tais
significados antitéticos podem ser encontradas. Assim, em alemão, ‘Boden‘
[‘sótão’ ou ‘chão’] significa tanto a coisa mais alta quanto a mais baixa da
casa; semelhantemente, em latim, ‘altus‘ significa ‘alto’ e ‘profundo’.
Portanto, a equivalência dos contrários nos sonhos constitui um traço arcaico
universal no pensamento humano.
Tomando um exemplo de outro campo, é impossível fugir à
impressão da correspondência perfeita que pode ser descoberta entre as ações
obsessivas de certos pacientes obsessivos e as observâncias religiosas dos
crentes em todo o mundo. Certos casos de neurose obsessiva na realidade se
comportam como uma caricatura de uma religião particular, de modo que é
tentador assemelhar as religiões oficiais a uma neurose obsessiva, que foi
mitigada por se tornar universalizada. Essa comparação, que sem dúvida é
altamente objetável a todos os crentes, não obstante se mostrou
psicologicamente muito frutífera, pois a psicanálise logo descobriu no caso da
neurose obsessiva, quais são as forças que nela combatem entre si até seus
conflitos encontrarem expressão notável no cerimonial das ações obsessivas.
Nada de semelhante era suspeitado no caso do cerimonial religioso até que,
remontando o sentimento religioso à relação com o pai como sua raiz mais
profunda, tornou-se possível apontar para uma situação dinâmica análoga também
nesse caso. Esse exemplo, ademais, pode advertir ao leitor que mesmo em sua
aplicação a campos não médicos a psicanálise não pode evitar ferir preconceitos
acalentados, aflorar sensibilidades profundamente enraizadas e provocar assim
inimizades de base essencialmente emocional.
Caso possamos presumir que os aspectos mais gerais da
vida mental inconsciente (conflitos entre impulsos instintuais, repressões e
satisfações substitutivas) estejam presentes em toda parte, e se há uma
psicologia profunda que conduz a um conhecimento desses aspectos, podemos então
razoavelmente esperar que a aplicação da psicanálise às mais variadas esferas
da atividade mental humana em toda parte trará à luz resultados importantes e
até então inatingíveis. Em um estudo excepcionalmente valioso, Otto Rank e
Hanns Sachs (1913) tentaram reunir o que o trabalho da psicanálise pôde
conseguir até agora no sentido do preenchimento dessas expectativas. A falta de
espaço me impede de tentar completar aqui sua enumeração. Posso apenas
selecionar, como menção, os achados mais importantes, acrescentando alguns
pormenores.
Se deixarmos fora de cogitação impulsos internos pouco
conhecidos, podemos dizer que a principal força motivadora no sentido do
desenvolvimento cultural do homem foi a exigência externa real, que retirou
dele a satisfação fácil de suas necessidades naturais e o expôs a perigos
imensos. Essa frustração externa o impeliu a uma luta com a realidade, a qual
findou parcialmente em uma adaptação a ela e, em parte, no controle sobre ela;
contudo também o impeliu a trabalhar e viver em comum com os de sua espécie, e
isso já envolvia uma renúncia de certo número de impulsos instintuais
impossíveis de ser socialmente satisfeitos. Com os avanços ulteriores da
civilização cresceram também as exigências da repressão. A civilização, afinal
de contas, está construída inteiramente sobre a renúncia ao instinto, e todo
indivíduo, em sua jornada da infância à maturidade, precisa, em sua própria
pessoa, recapitular esse desenvolvimento da humanidade a um estado de criteriosa
resignação. A psicanálise demonstrou que foram predominantemente, embora não
exclusivamente, os impulsos instintuais que sucumbiram a essa supressão
cultural. Parte deles, contudo, apresenta a característica valiosa de se
permitirem ser desviados de seus objetivos imediatos e colocar assim sua
energia à disposição do desenvolvimento cultural, sob a forma de tendências
‘sublimadas’. Outra parte, porém, persiste no inconsciente como desejos
insatisfeitos e pressiona por alguma satisfação, ainda que deformada.
Vimos que uma das partes da atividade mental humana é
orientada no sentido de obter controle sobre o mundo externo real. A
psicanálise nos diz agora, ademais, que uma outra parte, particular e altamente
prezada, do trabalho mental criativo serve para a realização de desejos — para
a satisfação substitutiva dos desejos reprimidos que, desde os dias da
infância, vivem insatisfeitos no espírito de cada um de nós. Entre essas
criações, cuja vinculação com um inconsciente incompreensível sempre foi suspeitada,
estão os mitos e as obras da literatura imaginativa e da arte, e as pesquisas
da psicanálise realmente arrojaram luz em abundância sobre os campos da
mitologia, da ciência da literatura e da psicologia dos artistas. Basta
mencionar a obra de Otto Rank como exemplo. Demonstramos que os mitos e os
contos de fadas podem ser interpretados como sonhos, traçamos os caminhos
sinuosos que levam da premência do desejo inconsciente à sua realização em uma
obra de arte sobre o observador e no caso do próprio artista tornamos claro seu
parentesco emocional com o neurótico bem como sua distinção deste, e apontamos
a vinculação existente entre sua disposição inata, suas experiências fortuitas
e suas realizações. A apreciação estética de obras de arte e a elucidação do
dote artístico não estão, é verdade, entre as tarefas atribuídas à psicanálise.
Mas parece que a psicanálise está em posição de enunciar a palavra decisiva em
todas as questões que afloram a vida imaginativa do homem.
E então, como terceiro argumento, a psicanálise nos
demonstrou, para nosso crescente assombro, o papel enormemente importante
desempenhado pelo que é conhecido por ‘complexo de Édipo’ — isto é, a relação
emocional de uma criança humana com seus dois pais — na vida mental dos seres humanos.
Nosso assombro se reduz quando compreendemos ser o complexo de Édipo o
correlativo psíquico de dois fatos biológicos fundamentais: o longo período de
dependência da criança humana e a maneira notável pela qual sua vida sexual
atinge um primeiro clímax do terceiro ao quinto ano de vida,e depois, passado
um período de inibição, reinicia-se na puberdade. E aqui se fez a descoberta de
que uma terceira parte extremamente séria da atividade intelectual humana, a
parte criadora das grandes instituições da religião, do direito, da ética e de
todas as formas de vida cívica, tem como seu objetivo fundamental capacitar o
indivíduo a dominar seu complexo de Édipo e desviar-lhe a libido de suas
ligações infantis para as ligações sociais que são enfim desejadas. As
aplicações da psicanálise à ciência da religião e à sociologia (pelo presente
autor, por Theodor Reik e Oskar Pfister, por exemplo), que conduziram a esses
achados, ainda são novas e insuficientemente apreciadas, mas não se pode
duvidar que estudos posteriores só irão confirmar a certeza dessas importantes
conclusões.
À guisa de pós-escrito, por assim dizer, devo mencionar
que também os educadores não podem deixar de utilizar as sugestões que
receberam da exploração analítica da vida mental das crianças e, ademais, que
vozes se levantaram entre terapeutas (Groddeck e Jelliffe, por exemplo),
sustentando que o tratamento psicanalítico de queixas orgânicas graves
apresenta resultados promissores, de vez que em muitas dessas afecções
determinado papel é desempenhado por um fator psíquico sobre o qual é possível
lograr influência.
Podemos, assim, expressar nossa expectativa de que a
psicanálise, cujo desenvolvimento e realizações até o presente foram sucinta e
inadequadamente relatados nestas páginas, ingressará no desenvolvimento
cultural das próximas décadas como um fermento significativo e auxiliará a
aprofundar nosso conhecimento do mundo e a lutar contra algumas coisas da vida,
reconhecidas como prejudiciais. Não se deve esquecer, contudo, que a psicanálise
sozinha não pode oferecer um quadro completo do mundo. Se aceitarmos a
distinção que recentemente propus, de dividir o aparelho psíquico em um ego,
voltado para o mundo externo e aparelhado com a consciência, e em um id
inconsciente, dominado por suas necessidades instintuais, então a psicanálise
deve ser descrita como uma psicologia do id(e de seus efeitos sobre o ego). Em
cada campo do conhecimento, portanto, ela só pode fazer contribuições, que
requerem serem completadas a partir da psicologia do ego. Se essas
contribuições amiúde contêm a essência dos fatos, isso apenas corresponde ao
importante papel que, pode-se reivindicar, é desempenhado em nossas vidas pelo
inconsciente mental que por tanto tempo permaneceu desconhecido.
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